[TODAS AS MANHÃS]
Todas as manhãs — mesmo as cavalgadas por astros esporeados, as adormecidas em noturnos abraços de serpentina, as que vêm de naufrágios em taças de magnésio, as que surgem repentinas (aquelas em que percebemos o crescimento da sombra das unhas) — Todas as manhãs uma tempestade sai do mar e eu sou o seu oco:
... — e não, ainda não se dá o tempo da clarineta, e nem a tesoura recortando os calendários de sangue entrevê a água de espelhos, e assim Todas as manhãs com o sol dentro do copo, sondo os cabos submarinos em busca de avarias, indago de algum telegrafista desertor roído de nostalgia, e vasculhando os céus I’m just a man in a crowd — poor cloud of birds and angels; e assim vou — na trilha, nos trilhos — de uma parede ao muro que me limita, com os olhos muito longe de mim
E neste ritual em que não faltam túmulos de jornais, flautas enlanguescidas por carência de valsa compulsando corpos que o inverno reduziu da medida de meus delírios; aliando-me a querubins alucinados sedentos de ambigüidades; valendo-me de um telefone de aço para uso psicotrópico; deitando cartas no leito das formas que se pode adivinhar no bojo das nuvens, ou na epiderme da pólvora
Neste ritual espero da outra manhã que me sirva à mesa no meu banquete de rebeldia
envio: poesia.net www.algumapoesia.com.br Carlos Machado, 2008
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